No seguimento daquilo que tenho vindo a observar e auscultar
no digníssimo espaço ocupado na blogosfera
por aquele que se afirma ser um novo movimento da praxe
de Leiria, ao qual com todo o gosto fui convidado a pertencer,
reparei numa falha gravíssima, talvez por lapso
ou mesmo por falta de conhecimento (não confundir
com ignorância!) venho aqui hoje apresentar aquele
que considero como um Senhor no que diz respeito ao panorama
Pimba nacional.
«Procuras bem!», diz-me ele quando lhe pergunto
há quantos anos anda nisto das cantigas. « Desde
1975. Nessa altura já se tocavam umas gaitadas,
umas acordeonadas». Depois, manda vir um garrafão
de vinho, «daquele melhor, do que eu bebo».
Explica-me que onde ele estiver «deve estar sempre,
ao lado, um garrafão». Que essa é,
aliás, umas das condições dos tratos
que faz com os organizadores das festas que anima. Ao seu
lado tem que estar um garrafão de vinho, «o
meu companheiro». Em certos sítios é mesmo
conhecido como «O Homem do garrafão».
Leonel Nunes, cantor e acordeonista «brejeiro».
Não se rala que chamem música «pimba» ao
que faz. Faz música «para o povo». Música «p'ra
pular», esclarece o filho, músico da mesma
cepa. As cassetes de Leonel vendem-se aos milhares, em
feiras, arraiais, quiosques e discotecas. Faz espectáculos
por todo o país e os seus temas passam nas rádios.« Ganha
muito dinheiro com isso, não é?», pergunto-lhe
eu. « O dinheiro não se cava. Já fiz
muita noitada e apanhei muita bebedeira. Agora quase que
não dá para os tremoços». «O
povo está a ficar sem dinheiro» e, portanto,
há poucas actuações: «Está mal
para todos!».
Leonel Nunes tem 45 anos e vive às portas da Guarda,
na Rapoula, a terra onde nasceu. Aprendeu acordeão, «a
ver o meu velhote que tocava concertina». Talvez
tenha herdado do pai « a paixão pelos harmónicos». «Ando
sempre a traquinar neles», diz Leonel, à medida
que vai revelando uma colecção impressionante
de foles, acordeõs e concertinas. Cada exemplar
mais bonito que o outro. «Se for preciso faço
um acordeão de raiz» e nós acreditamos,
sim senhor. O acordeão que utiliza nos espectáculos
merece um lugar de honra na sua oficina. Trata-se de um
vistoso instrumento, que lhe custou «mil e cento
e trinta contos» e que tem integrado um sistema «midi».
Uma pequena «orquestra» portátil. Longe
vão os tempos do seu primeiro acordeão, comprado
em Timor, em 73, andava o Leonel na tropa.
Durante vários anos foi «construtor civil».
Ao mesmo tempo, «por brincadeira» animava casamentos,
baptizados e festas de amigos. Depois «o bichinho» foi
mais forte e Leonel Nunes dedicou-se por inteiro à sua
música. Depois de tocar «coisas de outros» decidiu-se
a tratar das letras e das músicas. O seu primeiro êxito
deve-se aos... tomates do irmão. A cantiga chamava-se « os
tomates do meu irmão» e foi uma farturinha.
Chegaram a chamar-lhe o «rei da cassete», tantas
eram as pessoas interessadas no irmão (que afinal,
nem sequer existe) de Leonel Nunes. O último trabalho
tem também um título sugestivo: «Ela
ficou na da mãe». Leonel, de semblante carregado,
explica-me que o tema fala do «prato do dia, dos
divórcios e da separações de bens».
Outros temas: «Ela só quer minhoca», «Ela
tem bom olho» ou «Põe-lhe o capacete».
Só «cantiguinhas com este arzinho»,
ri-se Leonel Nunes. Malandreco.
Quando começou, o «povo chamava-lhe porco
e dizia que ele só dizia asneiras», conta
a mulher, « mas agora, o povo só quer disto». «Há 15
anos quem cantava isto? Só eu e o Quim Barreiros.
Mas agora é quase toda a gente!», confirma
o Leonel. O filho vai mais longe: «As pessoas chamam
pimba à música que se vende». Nuno,
que estuda engenharia electrotécnica, já tem
um trabalho discográfico editado - «No cometa
um foguetão». «Gosto deste género
de música. Nasci no meio dela». «Quando
era bebé, já andava pela casa a tocar testos»,
diz orgulhosa, a mãe. O rapaz, que tem uma voz impressionante,
quer seguir as pisadas do pai. Uma família divertida,
sem dúvida.